Telhado verde: Um passo para uma cidade sustentável

 

Telhado verde: Um passo para uma cidade sustentável

 

O alto número de edifícios e obras de infraestrutura (como estradas, estacionamentos, telhados, ruas, etc) das cidades ocasionou mudanças significativas na topografia e na qualidade e aspecto do solo em regiões urbanizadas. Essas mudanças trouxeram impactos ao ecossistema e entre eles pode-se destacar a alteração do clima urbano, que se deve principalmente à substituição de áreas verdes por superfícies concretadas. Essas superfícies têm capacidade de reter calor por mais tempo que áreas vegetadas, causando um aumento significativo na temperatura de cidades. A esse fenômeno climático presente em cidades se dá o nome “Ilhas de calor”.

Uma prática que é comumente encontrada em países como Alemanha e Suíça como estratégia para aumento de área verde em territórios urbanos é a adoção dos chamados telhados verdes. Telhado verde ou telhado vegetado é uma técnica arquitetônica que tem como objetivo adicionar área verde, aplicando solo e vegetação em uma estrutura de cobertura impermeável em edificações de diversos tipos. Um telhado verde pode ser pensado para diferentes conceitos de edifícios e possuir diferentes tipos de vegetação e finalidades. Para diferenciá-los, existem dois tipos de sistemas: extensivos e intensivos. 

Os sistemas extensivos são revestimentos leves projetados para suportar plantas que resistem à mudanças severas de clima, possuem pouca profundidade de solo (entre 5 cm a 15 cm) adicionando pouco peso à estrutura que o suporta e não costumam precisar de um sistema de irrigação. Os sistemas intensivos utilizam plantas de grande porte, podendo ser arbustos ou até mesmo árvores e por isso a profundidade do solo desse tipo de cobertura varia entre 15 cm a 90 cm e é necessário que possua um sistema de irrigação. A depender do projeto, os telhados verdes intensivos podem servir para fins recreativos e de lazer. 

 

Figura 1: Telhado verde extensivo

Fonte: Ecotelhado, 2020

Figura 2: Telhado verde intensivo

Fonte: Bonde, 2019

 

Os telhados vegetados precisam ter várias camadas, na qual cada uma possui uma função específica, sendo elas:

 

  • Camada de vegetação: a cobertura escolhida deve ser ideal para o clima do local onde vai ser instalada. A manutenção varia de acordo com a escolha entre telhado extensivo ou intensivo;

  • Substrato: é a camada de solo, que serve para fixação das plantas e fornece água e nutrientes necessários para manutenção das mesmas;

  • Geotêxtil: é a camada filtrante, que separa as camadas vegetais e substrato da camada drenante. Esta camada impede a passagem de partículas do substrato para o interior da camada drenante;

  • Camada de drenagem: evita alagamentos, estresse da cultura e retém parte da água da chuva, importante em períodos de estiagem;

  • Camada protetora: retém umidade e nutrientes acima da estrutura do telhado, fornecendo proteção física para a membrana de impermeabilização contra o crescimento de raízes;

  • Impermeabilização: impede o contato da água com a estrutura do telhado;

  • Estrutura do telhado: deve suportar toda a carga do telhado verde. Em sistemas extensivos a carga pode ser aumentada para, aproximadamente, 70 a 170 kg/m². Já para sistemas intensivos esse aumento pode variar entre 290 e 970 kg/m².

Figura 3: Camadas de um telhado verde

 

Fonte: Tassi e outros autores, 2014

 

Analisando os pontos positivos que o telhado vegetado pode trazer, estudos trazem diversas informações a respeito desses fatos, podendo destacar alguns fatores como: redução dos efeitos de “Ilhas de calor”,  pois da energia obtida através da luz que as plantas captam na fotossíntese, uma pequena parcela é utilizada para a fotossíntese, outra parcela é armazenada no sistema aquoso e o que sobra é transformado em calor e parte dele é refletido, ou seja, essa estrutura ajuda a reduzir o efeito de calor graças ao seu desempenho térmico satisfatório; possui um grande potencial na retenção e captação da água da chuva devido a incorporação da água no substrato, na qual parte é evapotranspirada e o restante é escoado para um sistema de drenagem; melhora na qualidade do ar, por causa da filtragem de partículas de gás carbônico e absorção de metais pesados; reduz a propagação de ruídos pois os telhados verdes podem absorver, refletir ou dispersar o som; aumento de área verde, que confere uma melhor associação entre edificações e meio ambiente, além de fornecer um conforto visual; ajuda a restaurar a biodiversidade pois o telhado pode se tornar lar de vários insetos importantes para um equilíbrio ambiental como borboletas, joaninhas, abelhas e diversos pássaros.

 

Figura 4: Comparação da energia solar sobre as superfícies

Fonte: Silva, Siqueira e Aragão, 2016 

 

Como pontos negativos, estudiosos destacam a baixa difusão da informação a respeito do assunto no país, além de necessitar de mão de obra qualificada para realizar a instalação e ser um alto investimento inicial.

No Brasil, algumas cidades já estimulam a instalação de telhados verdes em edifícios, como é o caso de Recife que em 2015 aprovou uma lei que obriga a instalação de telhado verde a todos os edifícios novos que possuírem mais de quatro pavimentos. Outras cidades começaram a implementar o IPTU verde, que oferece descontos para prédios que realizam práticas sustentáveis em suas construções, como é o casos do telhado verde. Alguns exemplos de cidade que possuem esse programa são Salvador (BA), Tietê (SP) e Campos do Jordão (SP).

Portanto, a importância de iniciativas que contribuam para que o meio urbano seja mais sustentável é imprescindível e para isso deve-se buscar soluções criativas e que se adaptem para a realidade que já é vivenciada nas cidades. O telhado verde é um dessas oportunidades de tornar uma cidade mais verde e trazer um equilíbrio entre as construções e o meio ambiente, devendo ser levada em consideração a viabilidade da instalação da mesma em construções já existentes e que ainda estão em planejamento.

 

Referências:

 

BRASIL. Lei nº 18.112/2015. Dispõe sobre a melhoria da qualidade ambiental das edificações por meio da obrigatoriedade de instalação do "telhado verde", e construção de reservatórios de acúmulo ou de retardo do escoamento das águas pluviais para a rede de drenagem e dá outras providências. Recife: Câmara Municipal [2015]. Disponível em <https://leismunicipais.com.br/a1/pe/r/recife/lei-ordinaria/2015/1812/18112/lei-ordinaria-n-18112-2015-dispoe-sobre-a-melhoria-da-qualidade-ambiental-das-edificacoes-por-meio-da-obrigatoriedade-de-instalacao-do-telhado-verde-e-construcao-de-reservatorios-de-acumulo-ou-de-retardo-do-escoamento-das-aguas-pluviais-para-a-rede-de-drenagem-e-da-outras-providencias>. Acesso em: 07 de jul de 2020.

 

Cidades oferecem desconto de até 100% no IPTU Verde. Qual Imóvel, 09 de jun. de 2017. Disponível em <http://www.revistaqualimovel.com.br/noticias/cidades-oferecem-desconto-de-ate-100-no-iptu-verde#:~:text=A%20cidade%20de%20Tiet%C3%AA%2C%20no,com%20descontos%20de%20at%C3%A9%2090%25>. Acesso em: 18 de jul de 2020.

 

FERREIRA, Luiz Henrique. Cotas verdes e telhados. Estadão, 11 de jul. de 2015. Disponivel em <https://economia.estadao.com.br/blogs/radar-imobiliario/cota-verde-e-telhados/>. Acesso em: 07 de jul. de 2020.

 

TASSI, Rutinéia; TASSINARI, Lucas Camargo da Silva; PICCILLI, Daniel Gustavo Allasia; PERSCH, Cristiano Gabriel. Telhado verde: uma alternativa sustentável para a gestão das águas pluviais. Ambiente Construído, [s.l.], v. 14, n. 1, p. 139-154, mar. 2014. FapUNIFESP (SciELO). 

 

SILVA, Franciele C. M.,SIQUEIRA, João P., ARAGÃO, Simas F..Telhados verdes e seus benefícios à sociedade e ao meio ambiente.